Abordagem para o ensino da matemática de forma participativa, colaborativa e lúdica para estimular o aprendizado, auto-estima e gosto pela matemática. Projeto apoiado pelo Instituto TIM.
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segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Pensando juntos

Semana passada perguntei a uma turma se eles gostavam de matemática. A maioria das crianças na sala me disse que não, quando perguntei o porquê, me responderam que  não sabiam matemática, por isso não gostavam. Indaguei alto se eles realmente não sabiam e comecei a aula. Comecei com a dinâmica da contagem com pontinhos, e logo estávamos explodindo números inteiros na casa do milhar. Os olhinhos da criançada brilhavam e sempre que eu fazia uma pergunta, eles tinham uma resposta na ponta da língua. Testávamos as hipóteses que eles levantavam e íamos descobrindo o caminho das casas, transitando entre unidades, dezenas, centenas.... No meio da aula, surpresa como a receptividade da turma e com a rapidez que as crianças pegaram a dinâmica, exclamei: "Mas olha só, vocês me falaram que não sabiam matemática, e olha o que estão me mostrando, vocês sabem muita matemática."Uma aluna rapidamente replicou: "E que quando pensamos juntos, somos espertos.".  Essa frase veio como um presente em cima de todo o desânimo acumulado da semana passada com as reflexões que realizei sobre a escola que é o terror.

Mostrar aos alunos que matemática não é algo automático, e que eles precisam refletir sobre a dinâmica da matéria, construindo o raciocínio em fundamentos muito básicos, porém consistentes e lógicos é o que a gente, como educador do círculo, dispõe como meio para mostrar para as crianças o caminho do exercício de autonomia delas. Junto com a percepção de que pensar juntos, todos são espertos, as crianças conquistam muito mais que não se assustar frente a uma soma grande. Elas percebem que elas conseguem fazer as coisas não porque alguém as disse como fazer, mas porque elas pensaram em maneiras de solucionar o que está posto em frente a elas. Elas aprendem a importância da reflexão para qualquer pergunta que a vida apresenta, e aprendem que refletir junto gera bons resultados.

Não acho que meus alunos perceberam que a maior lição que eles têm no circulo da matemática é esse, o papel da reflexão para a vida, mas acho que a sementinha está plantada, e como educadores do círculo, nosso papel é garantir que ela floresça.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A escola que é o terror



O círculo da matemática é uma iniciativa a qual tenho orgulho de participar. Porém, percebo que as crianças que atendemos possuem diversas deficiências que afetam não somente o aprendizado da matemática mas o desenvolvimento cognitivo em geral. Tais deficiências vão além do que as escolas estão geralmente preparadas para atender, e sinto que os 50 minutos por semana que passo com eles é insuficiente para ajudar as crianças da maneira como elas merecem.

Semana passada comecei a dar aulas em uma escola que, pra mim, é o terror. As crianças dessa escola dão mais trabalho do que eu esperava. Elas são violentas, agressivas e descontroladas. Houve três brigas de crianças se atracando em uma única aula. Em todas as outras aulas dessa escola houve pelo menos uma briga física. Nessa sala das três brigas, um dos alunos estourou uma bombinha dentro de sala aula, ao que imediatamente todos os demais alunos se jogaram no chão gritando que era tiro. Honestamente, não tenho mais vontade de voltar a esta escola, tampouco de dar aulas pra esses alunos.

Fico triste porque consigo perceber que a violência faz parte da forma como essas crianças aprenderam a se relacionar e é o meio de comunicação que elas acreditam ser eficiente e que está disponível para elas. Os alunos repreendem uns aos outros, e reproduzem a opressão que vivenciam no dia a dia quando estão em sala de aula. As crianças têm sérios problemas de autoestima, o que acarreta em falta de autoconfiança e tem impacto direto na capacidade de autonomia que elas possuem. Isso tudo se traduz em falta de iniciativa e proatividade por parte delas em tudo que elas fazem na vida.

Eu vi o futuro do Brasil  nesta escola, e ele não é bonito.
 


sábado, 26 de outubro de 2013

Números menores que o zero

Ao longo desta semana, dando aulas para o círculo da matemática, percebi que quanto mais a criança se permite imaginar, mas fácil vem a ideia dos números negativos, que a possibilidade da existência de números negativos vem mais facilmente em turmas cuja média de idade é mais baixa em comparação à turmas cuja média de idade é mais alta.Isso porque, imaginar que existe um número menor do que zero é quase inconcebível para colaboradores do círculo que estão no quarto ano. Porém, a ideia surgiu mais naturalmente com alunos do segundo ano. Mesmo difícil, a introdução da ideia de existência de números menor que zero ainda é um dos meus assuntos preferidos (Junto à "qual o maior número de todos?" Mas isso fica pra outra história).

Estamos em um país tropical e falar em temperaturas negativas não tem ajudado muito."- O polo norte é muito frio e tem vários animais legais, e o mais legal de tudo é que lá tem neve! Aqui também tem, mas a neve vem em forma de pedra de gelo.". O granizo apareceu ao longo da semana pela região de Porto Alegre e a memória disso ainda é muito fresca. Porém, pergunte aos pequenos colaboradores do círculo da matemática sobre a temperatura que faz no Polo Norte e a resposta, geralmente, é "- Zero grau". A conversa não desenvolve muito para além disso quando o assunto é a temperatura.

Mudança de assunto, então: "- Quem compra pão em casa?". Várias mãozinhas se levantam.  "- E se você vai à padaria e falta dinheiro para completar o preço total do pão?". Uma menina esperta levanta a mão e diz em tom de brincadeira: "- Eu saio correndo com o pão, professora.". Todos riem muito, "- É mentira, professora, eu não faço isso não.", completa logo. A ideia de dívida surge, porém, os números negativos não. Se eu estou devendo eu tenho zero reais, e se eu não estou devendo e gastei todo meu dinheiro também tenho zero reais. A ideia de que pode existir um número que se chama um menos surge, porém, ele está definitivamente antes do zero. Fazemos uma escadinha para ordenar. Todos concordam que ele está abaixo do zero. Porém, transferir o número "um menos" da escada para a reta não pareceu natural. "Não rolou" diriam algumas professoras do círculo, incluindo eu. É, esses números "um menos", "dois menos", "três menos", ainda não rolaram.

É engraçado pensar que essa mesma turma já tem ideia que não existe o maior número de todos, porém, o menor número de todos ainda é o zero. Aguardo, ansiosamente, a consolidação de que números negativos estão ali, depois do zero, e vieram para ficar.